Eu sabia que o tempo estava
frio para ficar na beira de um lago, ainda mais encostado em uma árvore em um
começo de uma noite movimentada, iluminada pelos postes, faróis e luzes que me
alucinam desde criança. Mas apesar da noite maravilhosa acompanhada da solidão
que poucos sabem apreciar, por mais que eu tentasse ficar de cabeça vazia,
pensamentos de diferentes origens, efeitos e consequências atravessavam a minha
mente sem que eu conseguisse estipular o cálculo de duração em meu cérebro.
Quando eu estava lá, com esses pensamentos passando pela minha cabeça,
recusei a quiromancia que uma cigana idosa oferecia-me e ela foi embora. Saindo
do parque, uma mulher de rosto normal, com um micro-vestido extremamente
chamativo falou que me faria feliz, tentando me instigar ao prazer com os seus
gestos que não fariam efeito. Agradeci a ela e fui embora, seria mais uma noite
de sexo, pode até servir para falar mas, não para desabafar como eu deveria desabafar.
Eu pensava
que faltava algo que eu deveria fazer, mesmo sendo meia noite no meio da semana
extremamente confusa, mas, a ideia foi firmando-se no ônibus assim como as
gotas pesadas de uma chuva delirante caindo na janela do ônibus. Desci do
ônibus vendo que os meus passos baseavam-se na saudade, na minha mente virada e
outros ares que eu respirava, mesmo não sabendo se era bom ou ruim. Corri um
pouco e toquei a campainha. Ouvi que os
passos estavam aproximando-se da porta e a minha ex-mulher abriu a porta. Com
um tom baixo, mas zangada, ela disse:
- O que você esta fazendo aqui a essa hora?
- Quero ver a minha filha!
- Você não tem juízo?!Você já viu que horas são?!
-Não me interessa!
Atravessei a
sala em silêncio, pensando em como nós dois fomos patéticos em todos os
aspectos do nosso casamento e até depois dele, que foi tão angustiante. O
marido da minha ex-mulher quase foi para cima de mim, se não fosse contido pela
mulher. Vendo isso, fui para o quarto da minha filha. A bonequinha dormia como
se o mundo, que situava-se dentro e fora de si não tivesse sentido para tentar
entende-lo. Cheguei perto dela e dei um beijo suave em sua testa, sentindo o
cheiro de chiclete naqueles cachinhos escuros. Deixei as bolachinhas de nata no criado-mudo e saí de lá
hostilizado pelo casal. Depois daquele dia, esqueci que essa mulher foi minha
esposa. Mas o manto da bondade, vindo da minha filha, cobriu-me da existência,
deixando de sentir até o vento que passeava pelos do meu braço.
Não tive a
menor ideia do tempo que esperei o ônibus e muito menos para chegar em casa, ou
seja, comecei a achar que o tempo era algo sem nexo. Entrei na minha casa como
se ela fosse estranha, mais estranha do que tudo, porém, o desengano me mostrou
que eu havia me confundido.
Peguei um copo grande, entupi-o de whisky e gelo,
acendendo um cigarro. Fiquei fumando e bebendo como se nunca
tivesse feito isso na minha vida, ainda mais sentado no sofá. Desse jeito, eu
dei um passo que eu deveria ter feito há muito tempo: decidi que não haveria
mais passado, presente, futuro, muito menos o amanhã.